‘Ele nunca atropelou um cachorro e foi morto como um que se larga no meio da rua’, desabafa filho de idoso morto no Alto da XV

 ‘Ele nunca atropelou um cachorro e foi morto como um que se larga no meio da rua’, desabafa filho de idoso morto no Alto da XV

Mesmo com tamanha dor e sofrimento, a família de Edmundo Goralewski não quer vingança, muito menos fazer justiça com as próprias mãos. O idoso, de 90 anos, morreu atropelado na madrugada de domingo (29), no Alto da XV, em Curitiba. A família quer apenas que o responsável seja punido, dentro da lei, para que o caso não caia no esquecimento. 

O acidente aconteceu próximo ao cruzamento das ruas Ubaldino do Amaral e XV de Novembro. Edmundo caiu após possivelmente passar mal. Ao todo, 47 veículos passam pelo idoso e não param para prestar ajuda. Ele permaneceu no chão por quase quatro minutos e morreu após ser atropelado. O motorista que o atingiu fugiu.

O filho de Edmundo, Percy Goralewski, disse que o pai tinha o hábito de sempre sair para comprar pão. Acontece que a família mora nas Mercês e o acidente aconteceu no Alto da XV.

“No sábado por volta de 20h30, minha irmã falou com a nossa mãe e ela disse que estava preocupada porque o pai tinha saído por volta das 18h e não tinha voltado”. 

A família não sabe o que aconteceu, mas conseguiu confirmar que Edmundo passou em uma panificadora da Rua Jacarezinho, onde comprou algumas coisas. Depois, pode ter se perdido ao voltar para a casa. 

“Presumimos que, no retorno, ele pode ter vindo pela Rua Roberto Barroso, e a nossa rua é perpendicular, e eu acho que ele se distraiu, talvez teve até uma perda de orientação temporária, não percebeu e continuou caminhando e essa rua nunca chegava. Ele continuou andando. Foi caminhando até a Rua Ubaldino do Amaral, deve ter andado meio que sem rumo, desorientado”. 

Edmundo caiu na via, onde acabou atropelado depois de muitos motoristas passarem e sequer pensarem em oferecer ajuda. Tudo foi registrado por câmeras de segurança.

“As imagens nos mostram um cenário de absoluta falta de empatia, de compaixão e humanidade, talvez os valores mais elementares que qualquer cidadão precisa ter para que nossa vida seja possível. Ali foi um festival de pessoas, que além de cometerem um crime de omissão de socorro, um outro indivíduo que fez o que fez, simplesmente se sentiu no direito de passar com o veículo por cima do meu pai”. 

Embora a polícia ainda não tenha recebido todas as confirmações, Percy contou que acompanhou o trabalho para liberação do corpo do pai. Foi ao pegar o documento da necrópsia, que ele viu a confirmação da causa da morte.

“Na certidão de óbito, a necropsia constatou que a causa da morte foi efetivamente uma lesão no crânio, causado pelo atropelamento. Ou seja, a causa da morte foi em virtude do atropelamento”. 

O filho de Edmundo desabafou que, se algum dos mais de 40 motoristas que passaram tivesse parado para ajudar, talvez a história seria outra.

“Quando ele desmaiou, ele ainda tinha vida. Se alguém tivesse o mínimo de decência moral para parar o veículo, proteger para que nada acontecesse, provavelmente ele seria atendido e estaria voltando para a casa”. 

Sem vingança, mas sim Justiça

Mesmo com a família destruída pelo que aconteceu, Percy disse que a vontade de todos é apenas fazer com que a sociedade mude. A reflexão que ele quer provocar é para que todos repensem suas próprias atitudes, sem vingança contra quem matou Edmundo.

“Hoje ele é notícia, a imagem impactante está comovendo a todos, mas daqui uma semana outra notícia tão ou mais trágica virá e ele vai sair de cena, virar só estatística e eu não quero isso. Seria muito mais fácil eu apontar o dedo para essa pessoa, que ainda será identificada, não sabemos quem é, e chamar de assassino, de monstro. Eu estaria retroalimentando o sistema que está impregnado, que é a violência generalizada”. 

Como filho, como cidadão, Percy pediu que o motorista que atropelou o pai dele se entregue à polícia.

“Quero que essa pessoa, se ela tiver um mínimo de humanidade dentro dela, que tenha a hombridade de se entregar à autoridade policial, explique o que aconteceu. Se for comprovado pelos trâmites legais, com direito a defesa e tudo que a lei garante, e se uma pena for aplicada, que seja aplicado da melhor forma possível”. 

A revolta nesse momento seria inevitável, mas Percy disse que nada mudaria o que aconteceu. Por isso, a escolha foi por esse caminho.

“Se eu me revoltar, nada vai trazer meu pai de volta. Essa pessoa já tirou o meu bem mais precioso, da minha irmã e da minha mãe. Se eu me revoltar e agir de maneira tão violenta como ele fez, eu vou estar alimentando uma violência desenfreada que estamos vivendo e nos acostumando a viver com ela”. 

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Ensinamentos de Edmundo

Edmundo Goralewski, de 90 anos, era caminhoneiro. O filho contou que o pai sempre optou pelo caminho do amor, do bem. 

“Eu não sou uma pessoa perfeita, sem defeitos, que não sente. Eu sei o que estou sentindo, mas não quero alimentar o meu lado ruim porque foi isso que meu pai me ensinou. Meu pai foi caminhoneiro, lembro dele dizendo que levou madeira para a construção de Brasília. Meu pai teve uma história gigantesca de vida e ensinamento de amor à natureza, amor aos animais, às pessoas”. 

Percy comentou que Edmundo “era um coração de criança, revestido por ‘uma casca de árvore’ para ser aquela pessoa durona, como proteção mesmo”. 

“Mas ele era amor puro. Tenho certeza que ele não me permitiria buscar e nutrir esse sentimento ruim, de revolta, de querer Justiça pelas próprias mãos”. 

Por fim, o filho de Edmundo disse que não quer que o caso caia no esquecimento na questão criminal, mas também no que diz respeito às mudanças que nós, enquanto sociedade, temos que refletir.

“Meu pai sempre me falou também, que me impactava muito, e agora fazendo a ligação com o que aconteceu, é que ele viajou o país carregando cargas, viajando o país por décadas, e nunca atropelou um cachorro. Ele foi morto atropelado. Nem um cachorro merece ser atropelado daquela forma, e ele também sempre amou os animais e me passou essa herança. Ele nunca atropelou um cachorro e foi morto como um cachorro atropelado que se larga no meio da rua”.

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